Histórias que iluminam

O amor não tem cor nem pré-requisitos

O final feliz da batalha de Eliane para adotar o pequeno Márcio exprime o desejo mais real de quem quer ser mãe

Carlos Queiroz -

“Adotar também é uma forma de gestar”, essa é a descrição dada por Eliane Bitencourt, 53, ao falar sobre adoção. Sua história começa como a de muitas famílias, onde o filho pede aos pais um irmão mais novo. A partir daí, o desenrolar prova que o amor de mãe é capaz de tudo.

O desejo pela adoção, que sempre existiu, acabou ficando ainda maior após duas tentativas frustradas de engravidar. Em junho de 2005, Eliane e o marido ficaram habilitados para adotar uma criança. Dois meses depois, em uma visita à filha de uma amiga que estava hospitalizada, uma prima da professora conheceu o pequeno Márcio, que na época era acolhido pela Casa do Carinho e estava hospitalizado para o tratamento de uma pneumonia causada pela traqueostomia. Ao receber as descrições da criança, que tinha apenas um ano de idade e havia sido afastada do convívio dos pais, Eliane ficou empolgada para conhecê-lo, mas logo recebeu o primeiro impedimento: não eram permitidas visitas.

Para tentar uma aproximação, a agora ex-diretora da Escola Dr. Brum de Azeredo, no Fragata, realizou uma ação de Natal no mesmo ano, em parceria com o abrigo, onde foram levados presentes às crianças. Para sua infelicidade, ao chegar no local, três não estavam lá, entre elas Márcio, que precisou ser hospitalizado novamente. Eliane então optou por entregá-lo pessoalmente. Tentando novamente conhecer o pequeno, foi até o hospital realizar uma visita à mesma menina que estava internada com ele da vez anterior. Dois dias depois, houve então o primeiro encontro entre Márcio, e aquela que seria sua mãe. “Foi uma identificação incrível. Para mim, não foi um encontro, eu estava reencontrando meu filho”, conta Eliane.

No dia 25 de dezembro, Elison, filho de Eliane foi levado para conhecer Márcio e logo começou a chama-lo de “maninho”. Surge então uma preocupação, pois a família estava se apegando ao menino, mas ainda tinham 104 pessoas na frente na lista de adoção. No mês seguinte, começa um esforço direcionado, quando a mãe vai até o Foro sinalizar a intenção de adotá-lo. Vem então, mais um impedimento. Um outro casal também queria adotar Márcio e chegou inclusive a receber a guarda do menino, mas alegando problemas de saúde, não ficaram com ele. A partir daí com a esperança renovada, a família começa a visitá-lo no abrigo. No entanto, em uma das visitas, são informados que Márcio não estava mais lá, pois havia sido reintegrado à família biológica. Emocionada, Eliane conta que chegou a ficar sem esperanças, “Não é para nós”.

Sem desistir, a professora conseguiu o endereço dos pais de Márcio e tentou uma aproximação. Após muitas visitas e um apego cada vez maior, Márcio começou a ficar na casa de Eliane alguns dias para o pai biológico trabalhar, até dezembro de 2006 quando a família foi viajar para curtir o Ano-Novo em Porto Alegre e Márcio foi junto. Ao retornarem a Pelotas, a surpresa: o pai pergunta se Márcio poderia ficar com a família pois ele não teria condições de cuidá-lo no momento e não queria que o filho voltasse para o abrigo. O pedido então é atendido e logo em seguida, a professora faz o pedido de guarda do menino e recebe um retorno positivo. Após dois pedidos de guarda, o novembro de 2007 jamais será esquecido pela família, que recebeu a adoção definitiva do menor.

Sem especificações

Eliane conta que dos cinco, aos dez anos de idade, Márcio passou grande parte do tempo em Porto Alegre para a realização de cirurgias para reversão da traqueostomia. Ao todo, foram mais de 59 procedimentos com anestesia. Em junho de 2011, quando tinha apenas seis anos, durante um dos procedimentos na capital do Estado, o menino foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA). “O Márcio nos trouxe uma missão que é a luta pelo autismo, na busca por direitos. Se eu não tivesse adotado ele, não estaria neste mundo azul que estou hoje”, conta Eliane que atualmente é presidente da Associação de Amigos, Mães e Pais de Autistas e Relacionados com Enfoque Holístico (Amparho).

Nesta semana em que é celebrado o Dia Nacional da adoção (25 de maio), além de uma linda história de amor entre mãe e filho, Eliane mostra que adotar é muito mais do que escolher uma criança. Está na identificação entre os dois, o que reforça a importância de comemorar a data. Ela relembra a época em que foi preencher o documento em que especificava as características desejadas na criança. “Coloquei que poderiam ser irmãos, brancos ou negros e que não importava se tivesse alguma síndrome”, conta. Após descrever essas características, Eliane conta que a funcionária que estava realizando o cadastro questionou se ela conhecia alguma das síndromes marcadas e ela respondeu: “Não conheço e nunca ouvi falar, mas eu vim aqui para abrir um processo de gestação e não buscar uma mercadoria perfeita”.

Hoje, Márcio está com 16 anos e estuda na Escola Piratinino de Almeida, em processo de alfabetização. Tudo sobre a adoção será contado no livro Meu mundo azul que está sendo escrito por Eliane e deve ser lançado em novembro deste ano.

Ainda precisa evoluir

Nem sempre finais como do Márcio se repetem, fazendo com que algumas crianças e adolescentes não sejam adotados por não se encaixarem no perfil desejado. No Brasil são 4.971 menores aptos para adoção. O número de pessoas habilitadas para adotar chega a 33 mil. No cenário municipal, a situação não é muito diferente, são 192 pessoas habilitadas para 13 crianças.

Segundo a juíza da Infância e da Juventude, Alessandra Couto, crianças com mais de dez anos ou com problemas de saúde acabam tendo maior dificuldade para adoção. Outro empecilho são grupos de irmãos, onde sempre se tenta a adoção em conjunto, mas se não for possível, acabam sendo separados. Nestes casos, a família é orientada a não permitir que os menores percam o contato. “Antigamente o perfil era mais restrito, mas com o passar dos anos, as famílias começaram a dar mais oportunidades, ampliando as características, mas precisamos avançar ainda mais. O ideal seria que não tivéssemos crianças aguardando, já que temos um número maior de famílias habilitadas”, comenta Alessandra.

Para auxiliar na aproximação entre as pessoas habilitadas e as crianças à espera por adoção, o Juizado da Infância e da Juventude realizava duas vezes por ano um encontro, onde colocavam todos no mesmo ambiente, durante uma tarde de recreação. Através desta ação, muitos menores que não se encaixavam no perfil acabaram sendo adotados, como lembra Alessandra. Mas devido à pandemia, esse evento não pôde mais ser realizado. “O desejo de ser pai e mãe pode ser alcançado tanto por crianças pequenas, quanto por adolescentes, desde que haja afeto. É importante que as pessoas abram seus corações e comecem a pensar sobre isso. São crianças reais aguardando por uma família”, finaliza a juíza.

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